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Educação para a resistência (2)

Publicado: Quinta, 09 de Março de 2017, 16h13 | Última atualização em Sexta, 17 de Março de 2017, 11h42 | Acessos: 246

 

Em 2016, a diretora de uma escola no município de Ananindeua (PA) impediu a apresentação do trabalho realizado por alunos sobre uma entidade do candomblé. Ela justificou a proibição com a frase: “Não é de Deus”. A atitude revela a discriminação e o preconceito ainda existentes no país, e reproduzidos com normalidade. Parece absurdo que a cena tenha acontecido em uma escola, o lugar que deveria construir saberes e formar cidadãos que aprendam a conviver e respeitar a diversidade.

Enfrentar a recorrência de ações como essa no ambiente escolar e no dia a dia da vida em sociedade tem sido um dos desafios da pauta etnicorracial no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), campus Belém.

A instituição trabalha desde 2007 temas como preconceito, estigma, estereótipo, discriminação, xenofobia e racismo em uma disciplina obrigatória: Educação para Relações Etcnicorraciais (Erer). Para não ficar apenas na teoria, a turma do segundo semestre de Licenciatura em Letras foi desafiada pela professora da disciplina a desenvolver um projeto de combate às opressões entre a comunidade acadêmica do IFPA campus Belém. O resultado é o projeto “Xambá no IFPA – A minha existência é resistência”.

O “Xambá no IFPA” foi construído de forma colaborativa pelos alunos da turma, sob a coordenação de Helena Rocha, professora da disciplina de Erer e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Diversidades (Neab). Os estudantes se dividiram em grupos de trabalho para a organização do projeto, que conta com um site, página no Facebook, história em quadrinho, videoclipe e jingle. Os produtos serão apresentados em uma programação de palestras, oficinas, mostra fotográfica e performances artísticas no próximo sábado, dia 11 de março, no Auditório Central do IFPA, a partir das 8 horas e com entrada franca.

Inspirado na herança de povos que resistiram à perseguição e à intolerância, Xambá é o nome de uma tradição religiosa, de origem africana, que segue firme em Pernambuco. O nome também se refere a grupos étnicos de alguns países da África, cujos integrantes usavam o sobrenome Xambá em homenagem aos ancestrais que lutaram pela independência de seus territórios. Xambá é, assim, um título forjado pela resistência de povos que se recusaram a deixar de existir.

Pioneirismo - Instituição pioneira no norte do Brasil, o IFPA inseriu a disciplina de Erer nas grades curriculares na formação de professores em 2007, atendendo às demandas da Lei nº 10.639/03 - uma conquista do movimento negro para a implantação de temáticas étnicas e raciais na educação. A disciplina de Erer tem o objetivo de preparar profissionais para trabalhar os conceitos de discriminação e identificá-los em sala de aula, além de orientar como agir em casos de intolerância.

São 10 anos de implementação da disciplina. E, para comemorar essa década de pioneirismo do IFPA dentre as instituições do Norte, propusemos o Projeto Xambá no IFPA para a turma de Formação de Professores de Letras. A ação da turma junto ao Neab, enquanto instrumento legal indutor das demanda“s etnicorraciais, pode ser entendida como uma contracultura acadêmica periférica em relação à cultura dominante. E o Projeto Xambá, somado às ações já existentes, mostra um leque de aspectos favoráveis à luta contra a intolerância na instituição, funcionando como um importante instrumento de parceria com a Diretoria de Ensino no Campus Belém”, avalia Helena Rocha.

A estudante Pâmela Pantoja, 20 anos, colaborou na produção da história em quadrinhos e do videoclipe. Ela acredita que poderá fazer um trabalho muito mais seguro, depois do aprendizado com o projeto e com a disciplina. “Achei de suma importância para mim e para a turma como um todo, como futuros professores, estar por dentro desses conceitos e diferenciá-los, porque muita gente ainda não tem ideia do que é o preconceito e do que é a discriminação. Agora eu posso entrar na sala de aula e identificar um tipo de discriminação”, afirma a jovem.

Para Pâmela, o contato com as religiões de matriz africana foi uma das gratas surpresas do projeto. “Precisamos pesquisar e conhecer mais detalhes do assunto para desenvolver os materiais. Minha mãe me contou um pouco a respeito e eu nem sabia que ela tinha informação sobre o tema. Achei incrível esse respeito que a religião tem por eles [orixás - divindades], as cores que representam cada um... E quanto mais eu pesquisava, mais eu me encantava”, conta.

Ludimilla Rodrigues, 20 anos, aluna do IFPA e integrante da umbanda, já sofreu ataques na internet por causa de sua crença. Na sua opinião, a oportunidade de vivenciar uma disciplina como Erer é um caminho importante para qualificar os profissionais que estarão nas escolas e disseminar informações livres do peso da discriminação. “Eu estou achando maravilhoso. Afinal, as pessoas criticam o que não conhecem. Preparando futuros professores agora, em um futuro bem próximo, se Deus quiser, serão mínimos os casos de preconceito e intolerância”, acredita. “É uma pena que algumas faculdades não tornem obrigatória essa disciplina. Apesar do Brasil ter tido toda essa miscigenação, essa grandiosa cultura, infelizmente as questões etnicorraciais ainda são pouco pautadas e ainda há muito desconhecimento”, completa.

Josafá Nascimento, 21 anos, aluno do curso, também é um dos envolvidos no projeto. A sugestão do nome foi dele, que teve contato com a história da Nação Xambá por meio de uma amiga da umbanda. Josafá é outro exemplo da necessidade de se tratar com respeito e abordagem atenta a complexa pauta da diversidade na escola, espaço que deve ser de construção de cidadania e de formação do ser humano.

“Meu local de fala é ser gay afeminada não-binária (ou seja, não me identifico com nenhum dos gêneros impostos (masculino ou feminino). Mas prefiro ser tratada pelo artigo ‘a’. Eu sempre fui problematizadora com causas sobre ideologia, mas sempre batia com questões de vivência sem um pingo de base teórica. Hoje, com a disciplina, eu posso, além de trocar vivência, ter uma base mais aprofundada com a teoria ensinada em Erer”, diz.

Confira a programação:

8h40 - Mesa de abertura: Coordenação NEAB, Diretora de Ensino e Josafá Nascimento (aluno do Curso de Letras Turma: 3082MN)

Palestra “Aspectos Jurídicos da Discriminação”, com Paulo Victor Squires (OAB – Pará)

10h - Mesa-redonda “A diversidade que existe e resiste dentro do IFPA”, composta por alunos da instituição: Emerson Caldas: racismo/ "bixa", preta e favelada; Ludimilla Rodrigues: intolerância religiosa; Josafá Nascimento: movimento LGBTQ (Bênção do lacre e equidade, a luta por justiça); Patrick Marques: cultura drag; Camila Alves: bissexualidade e feminismo; Marcos Cruz: gay afeminada

12h - Intervalo

13h – Apresentação do jingle: "Racismo em decadência"

13h30 – Exibição do vídeo: "Não mexe comigo!"

14h – Exposição da HQ: "Como você mascara sua intolerância?"

14h30 – Teste do aplicativo: "Conhecendo a Rota da Escravidão no Pará”.

15h30 – Dramatização musical: "Geni e Zepelim"

16h30 - Encerramento

Confira todos os detalhes do projeto em: https://xambaifpa.wixsite.com/projetoxamba

 

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